Arquitectura

Sergio Fernandez — in memoriam

Pedro Levi Bismarck

Tempo de Leitura10

1.

Há homens que são para nós — com quem tivemos a possibilidade de conviver, com quem tivemos a possibilidade de aprender — homens sem morte, impossíveis de morrer.

A representação da possibilidade da morte do Sergio Fernandez era, por isso mesmo, um gesto inconcebível, senão mesmo absurdo. Talvez por isso me tenha encontrado na posição paradoxal de adiar a possibilidade de um último encontro. E, por isso, o Sergio deixou-nos sem que tenha existido a oportunidade de lhe agradecer o papel que teve ao longo da minha formação: no primeiro ano da cadeira de Projecto na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, durante o período em que trabalhei no Atelier 15, mas sobretudo, nos últimos anos em que partilhámos uma grande afinidade na leitura de um certo estado presente do mundo, da arquitectura e, claro, da escola.

A generosidade do Sergio em aceitar o convite para participar na apresentação do pequeno opúsculo Arquitectura e «Pessimismo». Sobre uma condição política em arquitectura1, em Outubro de 2020, em plena pandemia da Covid-19 e em condições tão difíceis e arriscadas, define lapidarmente o carácter do Sergio: a sua coragem e o seu compromisso não apenas com a arquitectura, mas com a cidade ou, melhor, compromisso com a arquitectura enquanto manifestação de uma vontade de projecto e manifestação de uma vontade de cidade. Enfim, projecto de cidade, projecto político de cidade, projecto de cidadania política através da arquitectura.

2.

Se o Sergio «assumia-se como um arquitecto fundamentalmente do projecto», como se pode ler na nota que a Fundação Marques da Silva publicou a propósito do seu desaparecimento, não é de um projecto reduzido às condições técnicas da materialização da obra ou de um arquitecto entretido e encerrado nos limites fixos do estirador, mas é desta ideia de Projecto, uma ideia de Arquitectura-como-Projecto, que as últimas décadas têm vindo paulatinamente a pôr em causa: uma ideia de arquitectura como possibilidade de intervenção e transformação do lugar que, aceitando as limitações naturais de uma dada circunstância, nunca deixava, no entanto, de as interpelar e modelar, procurando sempre um princípio de continuidade formal entre aquilo que deveria permanecer e aquilo que poderia aparecer. Este princípio de continuidade nunca significou uma aceitação tácita das condições existentes, nem uma qualquer nostalgia por um passado. E, por isso mesmo, jamais ficou refém de uma qualquer nostalgia pelo futuro.

O «lugar» é, justamente, o termo limite ou, talvez, ainda, liminal, deste projecto: não apenas porque se tratava de garantir a possibilidade de resistir à desfiguração em curso do território e da vida, encontrando nas formas do existente2 a possibilidade de resistir ao impulso destruidor da modernização capitalista, mas porque era no e com o lugar que a arquitectura poderia, ela própria, resistir à utopia desmesurada da Vontade que o Projecto nunca deixava de conter em si mesmo, tão destrutivamente. A resistência do lugar era a forma de condicionar a vontade pura, absoluta e tirânica, que parecia determinar o destino do projecto moderno. De Fernando Távora, a Álvaro Siza, passando pelo Sergio: foi sempre essa a função disciplinar e política que o lugar desempenhou e que definiu a escola, ainda que esta, ao longo dos anos e tão ironicamente, tenha acabado por convertê-lo numa categoria meramente formal e estetizada. O lugar foi sempre um problema de escala é certo e a obra do Sergio revela isso de modo lapidar: mas nessa escala a relação justa entre as partes era uma questão tanto de forma como de política.

O Bairro do Leal (1974-76) — juntamente com o Mercado de Vila da Feira (1953-59) de Távora e o Bairro de São Vítor (1974-76) de Siza —  é, talvez, a expressão mais eloquente desse lugar do projecto, mas também desse projecto de lugar — uma formulação tão bela quanto contraditória, mas bela justamente porque contraditória: uma síntese que, no entanto, jamais foi capaz de conter o avanço desmedido da urbanização e a destruição das cidades e do território. Ali, no Leal, já estamos sós, mas ainda temos a arquitectura.

Estas três obras são, hoje, sem dúvida o testemunho de uma solidão da arquitectura3 mas há nelas o brilho inapagável de uma confiante resistência diante de um território — mas também de uma arquitectura — que é, hoje, para nós, tão incompreensível como desumana: ou, talvez, incompreensível, justamente, porque desumana.

A utopia do projecto, a confiança na capacidade da arquitectura em dar Forma e em dar Plano a essa nova «civilização da máquina», a sua capacidade em conter o processo de desterritorialização absoluto da modernização capitalista definiu o horizonte disciplinar e político da arquitectura do século XX e fez do arquitecto aquilo que, na verdade, ele nunca tinha sido, um técnico e um intelectual público em que a questão política do bem comum se colocava como princípio disciplinar de primeira ordem. «Aproximem-se do centro da realidade humana e construam a sua contra-forma — para cada homem e todos os homens (hoje, a arquitectura ou é o aliado de todos os homens ou de nenhum homem)».4 A citação é de Aldo van Eyck, mas exprime com toda a clareza a força de um legado ao qual o Sergio estava profundamente vinculado.

Fotografia da maqueta do Bairro do Leal no gabinete da Brigada orientada pelo Arquitecto Sergio Fernandez
Fotografia da maqueta do Bairro do Leal no gabinete da Brigada ©Fundação Marques da Silva, Arquivo Sergio Fernandez

3.

Ora, foi a dissolução desta ideia de projecto — este processo neoliberal de privatização da arquitectura — que o Sergio compreendeu tão bem no Arquitectura e «Pessimismo». Porque o Sergio, juntamente com Alexandre Alves Costa, com quem partilhou actividade no Atelier 15, são precisamente a manifestação clara e inequívoca dessa figura do arquitecto-público, do arquitecto-do-projecto, contra a figura neoliberal que hoje impera do arquitecto-privado ou privatizado, expropriado da sua condição pública e disciplinar: o arquitecto-do-objecto, de uma arquitectura reduzida à pura objectualidade das suas relações formais, convertida em objecto de gozo poético-diletante ou em objecto de infindáveis aparatos tecnocráticos. Enfim, triste e melancólica figura de um arquitecto sem projecto, sem cidade e sem lugar.

E será a propósito de uma frase fundamental de Giulio Carlo Argan, em Progetto e destino, «Não se projecta nunca para, mas sempre contra alguém ou alguma coisa»,5 que Sergio dirá, justamente, o seguinte:6

«A arquitectura não é uma coisa abstracta. Não pode ser uma coisa abstracta, uma coisa a sacralizar. A arquitectura tem relações, tem contextos. E esse contexto não é apenas físico, é muito mais do que isso (…). Eu tive, diria, a “sorte” — e é um paradoxo dizer isto, eu sei  — de fazer o curso em pleno fascismo, porque nós (…) vivíamos em permanência no contra (…). Sentíamo-nos na obrigação, mais do que fazer desenhos, de conhecer a realidade. O contexto geral de hoje dispensa essa atitude do contra. E, então, o refúgio é esse nível de abstracção, esse “olhar para o umbigo”. O projecto já não é projecto, é uma resposta (…). A consciência política, a consciência da presença da política em toda a acção [do arquitecto] é o que falta, falta e falta cada vez mais (…). O que acho que é preciso é que as pessoas tomem consciência, no contexto onde estão, e vejam como se pode fazer contra, como dizia o Argan».

4.

Ao Sergio, há, de facto, muito a agradecer: como professor e como arquitecto, mas sobretudo no apoio incondicional que sempre fez questão de demonstrar relativamente àquilo que tenho vindo a escrever e que tantos equívocos parece ter provocado numa classe incapaz de se pensar a si própria, insistindo no culto autofágico das suas ilusões e fechando-se num anti-intelectualismo provinciano: porque, na verdade nunca escrevi sobre outra coisa senão sobre a ruína desse mundo que ele, Sergio, procurou com tanta vocação dar forma e construir através da Arquitectura. Uma lição que, infelizmente, nem todos parecem ter compreendido, mesmo aqueles que reivindicaram para si o estatuto de discípulos e herdeiros da escola e que neste percurso converteram o projecto numa mera «resposta» e o lugar numa pura abstracção.

Na apresentação, em Fevereiro de 2025, do mais recente livro do Alexandre em que participei juntamente com José Manuel Pureza, o Sergio pediu-me o texto da minha apresentação para o ler novamente. No dia seguinte, respondeu-me dizendo: «Caro Pedro: agradeço-te o envio, prometido, do texto que leste na sessão de “lançamento” do livro do Alexandre. Li-o, agora, e confirmei a  justeza e, porque não dizê-lo, a beleza da sua forma e a importância do seu conteúdo. Obrigado!».

Este texto, a que chamei «Elogio dos Mestres, Repúdio dos seus Discípulos», terminava justamente assim — e era, reconheço-o agora com mais clareza, a minha homenagem, tanto ao Alexandre como ao Sergio:7

«Uma escola faz-se dos seus mestres, certamente. Não há escola sem mestres. Mas os melhores mestres foram sempre aqueles que recusaram ser mestres: que recusaram a sua canonização enquanto mestres. Por outro lado, uma escola nunca se fez dos seus discípulos. E foi essa a ilusão ou o erro que a institucionalização ou a canonização da escola trouxe consigo: pensar que se podia perpetuar a si mesma a partir dos seus discípulos. O discípulo pode, de facto, amar o mestre, mas jamais será capaz de o compreender. É por isso que «tradição» e «traição» guardam uma afinidade constitutiva e etimológica (lat. tradere). Para haver tradição tem de haver traição. Há uma infidelidade constitutiva que só o verdadeiro mestre pode aceitar e que só aquele que não quer ser um mero discípulo pode aventurar-se a fazer.  “A herança nunca é um 'dado', mas sempre uma tarefa”, escreveu uma vez Jacques Derrida».
  1. Pedro Levi Bismarck, Arquitectura e «Pessimismo». Sobre uma condição política em arquitectura, Stones against diamonds, Porto, 2020. A sessão de apresentação do livro decorreu no Porto, na Mala Voadora, a 24 de Outubro de 2020, e contou com a presença de Sergio Fernandez, Carlos Machado, Bernardo Amaral e Inês Beleza.
  2. Poder-se-ia dizer «formas vernaculares do existente», mas ao dizer isto, como elucida Carlos Machado, seria impreterível assinalar a estadia do Sergio em Rio de Onor, entre 1963-65, na procura de uma espécie de «comunismo primitivo» que sobreviveria ainda nesta aldeia comunitária da raia transmontana. Em qualquer um dos casos, a procura do vernacular não era simplesmente uma procura da forma, mas a procura de uma relação constitutiva entre forma e vida. Como acrescenta ainda Carlos Machado: «para estes nunca se tratou de inventar uma outra realidade, mas de encontrar no que existe aquilo que vale a pena e lutar a favor (tal como lutar contra aquilo que não vale a pena)». Agradeço a Carlos Machado o contributo determinante para esta discussão. A propósito de Rio de Onor ver: Sergio Fernandez, «Rio de Onor 1963-1965» in revista Joelho nº2, 2011 [Este texto será brevemente publicado na Stones against Diamonds].
  3. Pedro Levi Bismarck, “A solidão da arquitectura (Mercado municipal de Santa Maria da Feira. 1953-1959)” in Alexandre Alves Costa (ed.), Fernando Távora. Pensamento Livre, Fundação Marques da Silva, Porto, 2023.
  4. Aldo Van Eyck,«Beyond visibility», in For Us, 1963.
  5. Giulio Carlo Argan, Progetto e destino, Saggiatore, Milão, 1965.
  6. Sergio Fernandez, excertos da sua intervenção no debate de apresentação do livro Arquitectura e «pessimismo», 24 de Outubro de 2020.
  7. Pedro Levi Bismarck, «Elogio dos Mestres, Repúdio dos seus Discípulos». Apresentação do livro Argumentos 2. em convergência de Alexandre Alves Costa, Fundação Marques da Silva, 12 de Fevereiro de 2025.